Fundação Mário Soares      Associação Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! – NAM Instituto de História Contemporânea
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Os Curros ou Gavetas

um curro reconstruído

No Aljube, os presos eram lançados "numa enxovia estreitíssima, de um metro de largura por dois de comprimento, onde a luz e o ar entravam por um postigo de 15 x 20 cm., filtrados através de duas férreas portas, postigo, aliás permanentemente fechado".

Conheça o que eram essas celas em que a polícia política da ditadura forçava os presos ao isolamento. Visite no 2.º piso a reconstituição desses curros.

45 anos depois (escrito por Teresa Tito de Morais Mendes)


A Mãe, naquela manhã fria do dia 4 de Fevereiro de 1965, estava na varanda do Aeroporto de Lisboa com os olhos fixos no avião da Swissair que me iria levar para a Suíça. A mesma varanda onde eu tinha ido, tantas vezes, lanchar com os Avós e ver os aviões levantarem e aterrarem. Mas o avião não descolou. Em vez disso abriu-se a porta e a Mãe viu-me sair acompanhada por dois homens, que calculou serem da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado). Na pista, uma carrinha celular esperava por mim para me levar para a sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso.

A Mãe correu pelo aeroporto e junto do balcão da TAP disse que lhe tinham levado a filha, ainda menor de idade, e que a queria ver.

De imediato lhe responderam que teria de se dirigir à polícia.

Eu, por meu lado, antes de entrar na carrinha, exigia que queria avisar a minha Mãe, que ela estaria muito preocupada por me ver sair assim. De nada serviram os meus apelos e deixei o aeroporto dentro de uma carrinha da PIDE, sob forma de detenção, rumo a um lugar desconhecido.

Senti medo? Talvez sim. À distância penso que a força dos meus 18 anos e o sentimento de que conseguiria “mudar o mundo” deram-me um grande alento.

Mas foi difícil. Permaneci na sede da PIDE durante dois dias consecutivos. As funcionárias que me vigiavam estavam sentadas numa cadeira à minha frente, só uma pequena secretária rectangular nos separava, e revezavam-se de quatro em quatro horas. Durante esse tempo, as guardas faziam renda ou liam um pequeno livro preto, talvez de notas, ou simplesmente estavam em silêncio. Saíam quando o inspector da PIDE vinha fazer o interrogatório.

Vencida pelo cansaço, por vezes, parecia que ia dormitar mas, rapidamente, acordava sobressaltada com um batimento forte no tampo da secretária. Não conseguia comer e elas ameaçavam que iriam “fazer como os gansos” e colocar-me um funil pela garganta abaixo.

Abílio Pires foi o inspector da PIDE que conduziu os interrogatórios. A certa altura deu-me um safanão que me deitou da cadeira abaixo. Mas as maiores manifestações de violência foram a enorme fadiga e a sensação que poderia ficar ali por tempo indeterminado.

Ao entrar no reduto Sul do Forte de Caxias, depois do barulho ensurdecedor dos portões a fecharem-se atrás de mim, lembro que fui revistada até à exaustão. E recordo também como é humilhante espreitarem entre as nossas pernas, para ver se algo se encontra escondido, ao mesmo tempo que nos mandam despir completamente. Deixei todos os meus haveres no andar de baixo, dentro de uma caixa, que supostamente ficaria guardada, e subi ao 1º andar. Fui para uma cela onde se encontravam sete ou oito pessoas (não me lembro bem). Entre elas recordo Mariana Janeiro, que tinha ficado surda de um ouvido com a pancada que levou da PIDE, Alice Capela e a Mãe. Todas elas vieram a cumprir penas pesadas de prisão. Vinha com a roupa de cama na mão que me tinham entregado e prontamente uma delas ajudou-me a fazer a cama. Apesar disso, olha-se sempre com uma certa desconfiança para alguém que entra de novo.

Acho que fui rapidamente “adoptada” pelas minhas companheiras de cárcere. Contaram-me que o grupo de raparigas estudantes que tinha sido preso, pouco tempo antes de mim (21 de Janeiro), estava na sala ao lado. Encontravam-se juntas e eu podia contactar com elas, quando a guarda não passasse no corredor, batendo com as nozes dos dedos numa parede situada num canto da sala e fingindo estar a apanhar fruta lançada propositadamente para o chão.

AS VISITAS

Só uma semana depois do dia em que fui presa recebi a visita da minha Mãe. Entretanto sabia que diariamente vinha a Caxias, trazia-me comida, alguma roupa, papel e lápis e alertava, angustiada, para a necessidade de eu ser vigiada pelo médico porque já nessa altura tinha asma.

Fiz 19 anos na prisão. Recebi o bolo que a Mãe me levou todo partidinho aos bocados, não fosse ele conter alguma mensagem dentro.

Eu estava num regime de quase isolamento, sem direito a “recreio”, e só podia ir ao “parlatório” para receber visitas duas vezes por semana.

Foi com emoção que recebi a visita da minha Avó, já com mais de 85 anos, mostrando-me uma fotografia do Avô e dizendo-me que ele estava ali connosco.

E também consegui ver a Isabel, a minha sobrinha de três anos, a brincar às cavalitas dos pais, nos fins-de-semana, num terreno não muito distante do Forte de Caxias que eu conseguia avistar por entre as grades da janela da minha prisão.

O TEMPO

A sala tinha um formato rectangular. Um pequeno cubículo contíguo servia para a nossa higiene: um balde e um lavatório. Recordo que deitávamos um produto que parecia cal branca depois de utilizarmos o balde e, de tempos a tempos, tínhamos de ir despejá-lo. Esse mesmo produto que, numa noite de desespero, Alice tentou ingerir.

Só duas vezes por semana íamos tomar duche. Claro que também apanhei os célebres “pés de atleta”. As camas estavam dispostas ao lado umas das outras e à frente havia uma mesa comprida com dois bancos corridos de madeira, onde tomávamos as refeições. Foi nessa mesa que ajudei Mariana Janeiro na aprendizagem da leitura e da escrita.

O analfabetismo grassava pelo nosso país. Também as colónias tinham marcas profundas de atraso e de violação dos direitos humanos. Quatro anos antes, precisamente a 4 de Fevereiro, é desencadeada a luta armada pelo MPLA com o assalto às cadeias de Luanda seguindo-se uma forte repressão.

Em Maio de 1965, o Conselho Executivo da UNESCO propôs que os convites feitos a Portugal para participar na Conferência de Instrução Pública e no Congresso Mundial dos Ministros da Educação ficassem sem efeito “até que Portugal desse todas as facilidades para que fosse efectuado um estudo sobre a situação actual da educação nos territórios sob a administração portuguesa”.

Em 1968, a Conferência Geral “confirma a sua posição de não conceder qualquer ajuda aos governos de Portugal, da República da África do Sul e ao regime ilegal da Rodésia nos domínios da educação, da ciência e da cultura, e, nomeadamente, de os não convidar a participarem nas conferências e outras actividades da UNESCO, até que as autoridades destes países renunciem à sua política de dominação colonialista e de discriminação racial”.

A conferência pede ao Director-Geral para “dar uma assistência e ajuda reforçada aos africanos refugiados dos países e territórios ainda sob o domínio português”.

Desde o dia em que entrara na minha cela aguardava, com ansiedade, quando me iriam chamar de novo para ir “prestar declarações”. Só aconteceu 83 dias depois. Ouvi um grito no fundo do corredor: “…prepare-se para ir a Lisboa”. Cá em baixo, dentro da carrinha que nos iria levar à António Maria Cardoso, encontrava-se, já sentada no banco de trás, a Ana Abel, que eu mal conhecia. Trocámos um olhar cúmplice e solidário, nenhuma de nós sabia o que nos iria acontecer. Talvez por isso, demos as mãos, com força, durante todo o percurso que nos levou até ao nosso destino. Separámo-nos aí e as duas saímos em liberdade sob caução.

A libertação de todos os estudantes e a minha, ao fim de quase três meses, findos os quais teria de ir a julgamento, deveu-se muito ao grande movimento de denúncia e solidariedade que se gerou com a constituição de comissões de familiares a que a minha Mãe aderiu.

Nesta altura a Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPNL), movimento de oposição portuguesa, com sede em Argel, do qual o meu Pai era dirigente, lançou uma campanha internacional para a libertação de todos os estudantes presos.

DE NOVO A PARTIDA

Um mês e meio depois voltei a apanhar o avião da Swissair para me encontrar com o Jaime na Suíça, mas desta vez acompanharam-me ao aeroporto, para além da minha Mãe, muitos familiares, amigos e algumas estudantes que tinham estado comigo na prisão.

AEROPORTO DE LISBOA

Eu com a Mãe e a Avó

Ana Abel, Eu, Maria Emília Neves e Paula Massano de Amorim

Dever de Memória

Ao longo de vários anos, diversos resistentes anti-fascistas foram deixando os seus testemunhos e as suas histórias no blog Caminhos da Memória.

Com o objectivo de dar maior visibilidade a esses registos e memórias, a Exposição A Voz das Vítimas quis também deixar visíveis nestas páginas algumas dessas intervenções.

Cada história, cada impressão, cada recordação constituem mais uma pedra nesse longo caminho de preservação da Memória Histórica, vencendo amnésias e deturpações.

Esta secção, a que demos o título de Dever de Memória, está devedora do trabalho realizado por Joana Lopes e todos os demais que contribuíram para, desta forma, dar voz às vítimas.

19 de Junho de 2008

A Comissão de Socorro aos Presos Políticos

O texto que se segue, de Nuno Teotónio Pereira, foi publicado no jornal Público, a 17 de Janeiro de 1995

15 de Outubro de 2008

Feliz por ir para Caxias

José Hipólito dos Santos

22 de Dezembro de 2008

Um Natal na prisão de Caxias (1962)

José Hipólito dos Santos

21 de Janeiro de 2009

Brancos para Caxias, Pretos para o Tarrafal

Diana Andringa

2 de Fevereiro de 2009

Um bife na Brasileira do Chiado

Helena Pato

18 de Fevereiro de 2009

Uma pêra e tudo o mais sem sentido

Helena Pato

9 de Março de 2009

Um, dois, três... vamos lá, outra vez!

Helena Pato

16 de abril de 2009

Um tiro na noite

Helena Pato

20 de Abril de 2009

Todos os anos pela Primavera

Diana Andringa

23 de Julho de 2009

A Moeda

Helena Pato

1 de Agosto de 2009

O velho foi à viola

Diana Andringa

3 de Dezembro de 2009

Prisão e tortura – Dois casos

Raimundo Narciso

21 de Janeiro de 2010

Naquela madrugada de 21 de Janeiro de 1965

Artur Pinto

27 de Janeiro de 2010

27 de Janeiro de 1970: Relato de uma prisão atípica

Diana Andringa

15 de Maio de 2010

"Viagem ao centro do mundo da Maria José e do Zé Luís"

A entrevista que se segue, realizada por Anabela Mota Ribeiro, foi publicado na Revista Pública, a 5 de Outubro de 2008


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